A experiência de um adolescente negro no Brasil

A experiência de um adolescente negro no Brasil

Por vezes, é possível perceber que história dos jovens negros no Brasil são como trajetórias planejadas. Considere que vivemos em uma sociedade onde as suas características fenotípicas, principalmente o seu tom de pele, pode traçar o seu destino. Ser negro no Brasil é estar diante de inúmeras desigualdades históricas, disparidades de emprego e renda, moradia, alimentação, acesso à educação, cultura e lazer e pertencer ao grupo social que mais está exposto à violência e maiores índices de assassinato.

Para pensar no panorama da juventude negra no país, é preciso iniciar definindo o que é o racismo. Existe um autor chamado Adilson Moreira que descreve o racismo como “algo presente em símbolo, que não precisa ser colocado em palavras, todos entendem, é cultural” e fala também que é uma estratégia para “sustentar o lugar do grupo dominante e impossibilitar que os grupos minoritários tenham acesso a esse lugar que é de privilégio do branco, para que o mesmo se mantenha hegemônico”. 

Em resumo, o racismo é um sistema que prejudica a vida e o avanço dos negros na sociedade e os dados comprovam isso, que a população negra encontra-se em desvantagem social quando comparada a outros grupos.

Vamos falar sobre alguns dados sociais, como o racismo afeta a saúde mental e também a autoestima. 

No Brasil, o índice de assassinato entre pessoas negras só vem aumentando. De acordo com os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nos últimos 10 anos, os índices cresceram 11,5% entre os negros, enquanto a taxa entre brancos diminuiu 12,9%. Quando falamos de gênero, as mulheres negras representam 68% do total das mulheres assassinadas no País, tendo quase o dobro de chances de ser uma vítima.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública e a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) informaram recentemente que, no Brasil, das quase 35 mil mortes de jovens que ocorreu entre 2016 e 2020, 80% deles eram jovens negros. Além disso, os índices podem se tornar ainda maiores em algumas regiões do País. 

Dados da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e do Senado Federal apontam que 56% da população brasileira concorda que a morte violenta de um jovem negro causa menos impacto que a morte de um jovem branco. O racismo naturalizou a violência contra os corpos negros e, por vezes, nem causando comoção.

Deve-se estar ciente que o racismo também afeta o acesso das pessoas negras nos ambientes educacionais, mercado de trabalho e espaços de cultura e lazer. A quantidade de jovens negros buscando uma oportunidade no mercado de trabalho é quase o dobro quando comparado aos jovens brancos. 

Ainda assim, são os que mais encontram-se sem emprego formal. Dos 6,7 milhões de jovens com faixa etária entre 14 e 29 anos, 4,36 milhões são jovens negros desempregados e 2,32 milhões são brancos.

Como possuem dificuldades para acessar o mercado de trabalho formal, a informalidade é um caminho que se apresenta. As horas de trabalho costumam ser altas e, por vezes, impede a busca ou frequência em espaços educacionais, afinal, sobreviver é a prioridade. 

Hoje, dos jovens entre 14 e 29 anos que deixaram a escola, 71,7% deles são negros e a maioria relata o abandono para ter a possibilidade trabalhar. Também precisamos falar sobre as áreas de moradia das pessoas negras, já que costumam estar localizadas em lugares mais afastados dos grandes centros, tendo menos acesso à mobilidade e limitações à saúde e ao lazer.

Imagine que ser um jovem negro é estar em constante estado de vigilância, sempre sair com documentos de identificação e evitar situações de risco, tendo ciencia que os índices de violência e mortalidade são maiores entre este grupo. Consideremos como tudo isso pode afetar a nossa saúde mental, já que episódios de violência policial, por exemplo, podem levar ao transtorno de estresse pós-traumático; as inseguranças no mercado de trabalho podem causar ansiedade; os episódios sistemáticos de racismo podem gerar transtornos depressivos e outras questões, como sentimento de incapacidade, isolamento, agitação, hipervigilância, pesadelos, pouca tolerância emocional, abusos de substâncias químicas, autolesão, ideação suicida, e identificação com a morte.

Se você conhece o cantor e compositor Baco Exu do Blues, em 2022, ele lançou um álbum intitulado QVVJFA (Quantas vezes você já foi amado?) – um dos álbuns mais escutados no mundo quando foi lançado – que fala sobre a afetividade do homem negro na sociedade. O racismo também afeta as formas de amar, de dar e receber amor, então… Quantas vezes você já foi amada(o), jovem? Costuma dizer ou receber um eu te amo?

“Tantas dores que eu tentei esconder

Queria tudo, me disseram: Isso não é pra você

Julgamentos nos fizeram perder

Livre demais pra quem não é, consigo entender

Usamos drogas pra esconder nossa dor

Diamantes nas correntes pra ofuscar nossa dor

Cravejamos o sorriso, não vão ver nossa dor…

Eu só tô tentando achar

A autoestima que roubaram de mim

Que roubaram de mim”

Indicações: 

https://impressaodigital126.ufba.br/provisorio-um-mal-estar-psiquico-causado-pelo-racismo-diario/

https://www.bahianoticias.com.br/cultura/coluna/7444-coluna-raca-o-suicidio-entre-a-populacao-negra-e-lgbtqia-e-uma-discussao-necessaria.html

https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/frontpage/2017/12/campanha-vidas-negras—pelo-fim-da-violncia-contra-a-juventude-negra-no-brasil.html

https://www.canalsaude.fiocruz.br/canal/videoAberto/violencia-contra-a-juventude-negra-sdc-0480

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