Na medida em que a escola é um espaço de aprendizagem e promoção de cuidados, também pode se tornar um ambiente de reprodução de violências. Nos textos anteriores, foi possível dialogar sobre algumas temáticas, entre elas, adolescência, identidade, puberdade, assédio e educação sexual, gênero, sexualidade, raça e classe e bullying e com eles foi possível compreender algumas questões que perpassam a adolescência e como os ambientes não estão preparados para lidar com a diversidade, deixando de proporcionar acolhimento e cuidado.
O ambiente escolar não está isento de ser um espaço despreparado para compreender a diversidade, podendo se tornar um lugar de exclusão. Dificilmente as instituições governamentais se propõem a observar o que ocorre no interior do ambiente escolar, principalmente a se tratar da relação entre professor-estudante, agentes educativos-estudante, e estudante-estudante, e com isso, diversas ações autoritárias e estereotipadas são reproduzidas nesses ambientes.
Um Autor chamado Hédio Silva Jr, fala sobre algumas ações que ocorrem dentro das escolas, entre elas, falas que reproduzem violências sociais. Em seu livro sobre Discriminação racial nas escolas, o Autor cita o caso de professores que falam que os estudantes da favela só vão às escolas para comer, ou que são os que mais dão trabalhos ou são bagunceiros.
Ao pensar a relação professor-estudante, é possível falar diretamente sobre dois pontos centrais, o primeiro é a relação de poder e referência exercida pelo profissional em sala de aula. A escola atua como um espaço de construção de identidades e a pessoa que porta essa voz pode ser capaz de influenciar diretamente nas escolhas dos estudantes, incluindo a reprodução de crenças onde estudantes negros, favelados ou LGBT’s são desajustados, bagunceiros ou menos capazes. A segunda questão se refere à reprodução de comportamentos estruturais.
No Brasil, mais de 70% dos jovens que abandonam as escolas são jovens negros. O principal motivo é a necessidade financeira mas, muitos desistem devido a situações de violência racial que sofrem sistematicamente no ambiente escolar, sem estabelecer ou construir uma relação ou sentimento de pertença com o espaço. Por vezes, a escola se torna um espaço de negação de identidades, seja ela racial, étnica, de gênero ou sexualidade, inclusive, no Brasil, 82% das pessoas transgêneras não conseguem concluir o ensino médio. Precisa-se refletir sobre a forma que a educação tem sido construída no brasil, já que não está sendo um espaço de permanência para as minorias sociais.
Como exemplo de discriminação e ausência do acolhimento institucional, pode-se falar sobre o livro didático, uma autora chamada Ana Célia da Silva, fala em um dos seus livros, sobre A discriminação do negro no livro didático, nele faz uma associação entre negritude e o lugar da subalternidade, onde nos livros didáticos o corpo branco é sempre associado à beleza, pureza, bondade e inteligência. Enquanto isso, as pessoas negras geralmente são associadas à imagem da feiura, incapacidade, malvadez e a atribuições físicas não relacionadas ao ser humano, sendo retratada mais uma vez como minoria social.
Nos livros os personagens brancos costumam ter nome, sobrenome, família e exercem papéis e funções que representam relevância social enquanto o negro é representado em posições percebidas socialmente inferiores, como escravos, serviçais, caricaturados e desumanizados. São crianças brincando nas ruas, filhos de empregadas e que raramente apresentam um nome, tendo apelidos que remetem a sua cor de pele.
É possível perceber que o discurso reproduzido no ambiente escolar, seja através de falas, imagens ou textos, reforçam apenas a invisibilidade e o estereótipo de determinados sujeitos, sendo necessário pensar sobre o processo de permanência dos estudantes em um ambiente que, em suma, não os acolhe. A escola precisa estar aberta a refletir as suas práticas e formação dos seus profissionais, afinal, é um espaço de trocas e preparação não apenas para o mercado de trabalho, mas também para o processo de formação pessoal dos sujeitos.
Indicações de leitura:
https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18317-educacao.html
https://ceeinter.com.br/ojs3/index.php/revistadeestudosinterdisciplinar/article/view/83
https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/06/negros-sao-717-dos-jovens-que-abandonam-a-escola-no-brasil.shtmlhttps://porvir.org/ao-ignorar-diferencas-escola-exclui-estudantes-trans/#:~:text=Apesar%20de%20poucos%20dados%20dispon%C3%ADveis,entre%2014%20e%2018%20anos.
https://bradonegro.com/content/arquivo/12122018_130031.pdf
http://www.repositorio.ufba.br/bitstream/ri/8688/1/Ana%20Ceia%20da%20Silva.pdf
